A gente não muda a cultura de uma empresa com um workshop. Mas o caminho para mudar pode começar por ele
Mudar a cultura de uma organização é, muitas vezes, como tentar virar um transatlântico: exige tempo, intenção e coordenação.
Mas toda grande virada começa com um movimento pequeno, e às vezes invisível.
Um bom workshop não resolve tudo. Mas pode desestabilizar certezas, criar novas perguntas e abrir espaço para conversas que normalmente não cabem na agenda.
É nesse espaço, entre a rotina e o inédito, que a transformação começa.
Quando um cliente chega com um problema ou o desejo de repensar a forma de trabalho de um time, de uma área ou de toda a organização, começamos por onde faz mais sentido: sensibilizando as pessoas envolvidas.
Fazemos isso por meio de workshops provocativos, com dinâmicas práticas e adaptadas à realidade do grupo.
A ideia não é ensinar algo pronto, mas ativar a inteligência coletiva para questionar padrões, revelar tensões e construir novas possibilidades a partir do que já existe.
Porque a base de uma transformação real não está em frameworks de prateleira, mas na potência das conversas certas, com as pessoas certas, no momento certo.
Depois dessa sensibilização, mergulhamos no dia a dia das pessoas e realizamos uma avaliação mais profunda para entender o terreno: como as relações se dão, onde há fluidez ou atrito, e o que já está maduro o suficiente para sustentar mudanças estruturais.
Só então começamos a focar na reestruturação do trabalho, buscando criar condições para gerar impacto real nos resultados.
Sempre buscamos aproveitar ao máximo a estrutura já existente na empresa, mas com um novo olhar.
Muitas vezes, o que muda não é o ritual, mas o objetivo dele. Ou os papéis presentes. Ou o tipo de decisão que aquele espaço precisa sustentar.
Esse tipo de intervenção gera algo concreto e imediato:
Mais alinhamento entre as pessoas, clareza sobre o que é prioridade e foco coletivo no que realmente move o ponteiro dos resultados.
Em uma unidade de negócios que acompanhei recentemente, por exemplo, após o trabalho de sensibilização, cocriação dos objetivos e resultados-chave e o redesenho da estrutura dos times para alcançá-los, estruturamos em paralelo um novo sistema de gestão do trabalho, pensado para dar mais fluidez às entregas.
O feedback da gestora foi direto:
“Pela primeira vez em anos, os avanços dos times ficaram visíveis, fáceis de acompanhar e conectados com os resultados que importam. Eu parei de gastar tempo em reuniões só para buscar status, e passei a ter clareza sobre os avanços para reportar ao board com segurança. Decidir ficou mais fácil.”
Essa é a diferença entre acumular iniciativas em andamento e ter clareza sobre quais realmente merecem prioridade e se estão entregando o que se espera.
Claro, não existe uma fórmula mágica que resolva todos os problemas da noite para o dia.
Mas a cada passo, os ganhos são perceptíveis.
A cada interação, a mudança se traduz em mais foco, melhor alinhamento e decisões mais assertivas.
Para que isso aconteça de verdade, seguimos três princípios fundamentais:
1. Intenção
Toda mudança começa com uma escolha.
É quando a empresa ou a liderança reconhece que dá para fazer melhor.
É o momento de admitir que existem outras formas de operar, decidir e entregar.
E de declarar, com coragem, que está disposta a tentar algo diferente.
2. Consciência
Depois da intenção, vem o momento de encarar a realidade: o que trava, o que desgasta, o que ninguém fala.
É hora de tornar visíveis os padrões que já não servem, abrir espaço para novas formas de trabalhar e decidir, através de experimentos que testem, aos poucos, um novo jeito de fazer.
É aqui que as tensões ganham nome e as possibilidades começam a aparecer.
3. Consistência
Nada muda de verdade sem prática.
É no ritmo dos rituais, nas conversas que se repetem, nos acordos que se sustentam que a transformação se consolida.
Com rotinas claras e decisões bem cuidadas, o novo jeito de trabalhar deixa de ser exceção e passa a ser o padrão.
Cultura não se muda com um evento, workshop ou treinamento.
Mas começa por uma experiência que muda o jeito de ver e de agir.
A partir desse novo olhar, a mudança começa a ganhar forma no dia a dia.
Dá trabalho, mas vale muito a pena!
E por aí, quantas decisões ainda são tomadas com base em estruturas que já não entregam o que deveriam?
Texto publicado por Rica Retamal.